Comportamento de manada é quando a gente pensa, escolhe ou age como o grupo ao redor, mais pelo grupo do que pelo próprio critério. Acontece com voto, com compra, com opinião e, todo dia, com comida. A eleição de domingo deixou isso escancarado nas conversas e nas redes, e aproveito o assunto para falar do lugar onde eu mais vejo a manada agir: o prato.
O que é comportamento de manada?
É a tendência de seguir o que a maioria faz, principalmente quando a situação é incerta ou quando discordar tem um custo social. Na psicologia, o nome mais usado é conformidade social. Ela não é burrice nem fraqueza: durante muito tempo, seguir o grupo foi o jeito mais seguro de sobreviver. O problema começa quando o grupo está errado e ninguém percebe.
O que mostrou o experimento de Asch?
Nos anos 1950, o psicólogo Solomon Asch pediu a voluntários que dissessem qual de três linhas tinha o mesmo tamanho de uma linha de referência. A resposta era óbvia. Só que os outros participantes eram atores combinados para responder errado em voz alta. Cerca de um terço das respostas foram junto com o grupo errado, e uns três em cada quatro participantes cederam pelo menos uma vez.
O detalhe que mais me interessa é outro: quando um único ator respondia certo, a conformidade despencava. Basta uma pessoa sustentando o próprio critério para os outros se sentirem autorizados a fazer o mesmo.
A manada não precisa de maioria para perder força. Precisa de uma pessoa que não abre mão do que está vendo.
A gente come mais quando está em grupo?
Sim, e isso tem nome: facilitação social do comer. Nos estudos de diário alimentar do pesquisador John de Castro, refeições feitas com outras pessoas foram em média 44% maiores do que as feitas sozinho, e quanto maior o grupo, maior a refeição. A gente também copia o ritmo: come mais rápido quando a mesa come rápido e repete quando todo mundo repete.
Funciona nos dois sentidos. Numa revisão de 2015 sobre modelagem social do comer, as pessoas comeram menos quando quem estava ao lado comia pouco. A comida do vizinho de mesa vira a régua do que parece normal.
No consultório isso aparece o tempo todo. A pessoa segue o plano em casa, mas no almoço da firma, no churrasco da família ou no happy hour come o que a mesa come, no ritmo da mesa, porque destoar dá trabalho. Ninguém está te obrigando. É a manada falando baixinho.
Peso e hábito pegam de quem anda com a gente?
Em parte, sim. Um estudo que acompanhou mais de 12 mil pessoas por 32 anos, publicado em 2007, viu que ter um amigo próximo que desenvolveu obesidade aumentava em 57% a chance de a própria pessoa desenvolver também. Não é contágio de vírus: é o que passa a parecer normal comer, beber e fazer no fim de semana.
A boa notícia é que o mesmo vale para o lado bom. Quem passa a andar com gente que treina, cozinha e dorme cedo tende a ir na mesma direção.
Movimento de massa, dieta da moda e o que o Eric Hoffer viu
Em 1951, o escritor americano Eric Hoffer publicou um livrinho sobre movimentos de massa (aqui saiu como “Fanatismo e movimentos de massa”). A observação dele que eu mais guardo: quem se joga de cabeça num movimento muitas vezes está fugindo de si mesmo. O movimento oferece uma identidade pronta, um inimigo claro e a promessa de que tudo vai mudar, e em troca pede que a pessoa pare de pensar por conta própria.
Dieta da moda funciona do mesmo jeito. Tem o alimento vilão, o produto salvador, a comunidade que fala a mesma língua e a promessa de uma vida nova em 30 dias. Já foi o glúten, já foi o carboidrato à noite, hoje é a caneta que resolve tudo sozinha. Quando o grupo muda de ideia, a pessoa muda junto, sem ter entendido por que entrou nem por que saiu. É o caminho mais curto pro efeito sanfona.
Não estou dizendo que toda tendência é ruim. O whey, por exemplo, virou moda e tem benefício real para muita gente, e as canetas têm indicação, como explico em dieta com Mounjaro. A pergunta que separa uma coisa da outra é sempre a mesma: você escolheu isso olhando para o seu caso, ou porque todo mundo está fazendo? Um nutricionista comportamental online ajuda a olhar para o seu caso.
Como não seguir a manada na alimentação
- Decida antes de chegar: almoço da firma, aniversário, churrasco. Pense em casa o que você quer comer lá. Decisão tomada antes resiste melhor à pressão da mesa.
- Sirva primeiro, olhe depois: monte o seu prato antes de ver o prato de todo mundo. Assim a régua é a sua fome, e não a do vizinho.
- Escolha o seu ritmo: se a mesa come rápido, você não precisa acompanhar. Comer devagar é uma das formas mais simples de voltar ao próprio sinal de saciedade.
- Pergunte o porquê de cada regra: “corta isso”, “toma aquilo”. Se ninguém sabe explicar o mecanismo, desconfie.
- Seja o ator que responde certo: no experimento de Asch, uma pessoa sustentando o óbvio liberou as outras. Na mesa também: quando você recusa a terceira rodada sem drama, quase sempre alguém respira aliviado.
Veredito
Seguir o grupo é humano e, muitas vezes, útil. O risco é terceirizar o próprio critério sem perceber, seja na urna, seja no prato. Pensar por conta própria não significa ser do contra: significa olhar os dados, olhar o seu caso e assumir a escolha como sua. É isso que eu tento construir com cada paciente, uma refeição de cada vez.
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Perguntas frequentes
Referências
- Asch SE. Studies of independence and conformity: a minority of one against a unanimous majority. Psychological Monographs, 1956;70(9):1-70.
- de Castro JM. Family and friends produce greater social facilitation of food intake than other companions. Physiology & Behavior, 1994;56(3):445-455.
- Cruwys T, Bevelander KE, Hermans RCJ. Social modeling of eating: a review of when and why social influence affects food intake and choice. Appetite, 2015;86:3-18.
- Christakis NA, Fowler JH. The spread of obesity in a large social network over 32 years. N Engl J Med, 2007;357(4):370-379.
- Hoffer E. The True Believer: thoughts on the nature of mass movements. Harper & Row, 1951.