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Nutrição Comportamental

Eleição, bolsa em queda e fome de estresse: cortisol engorda?

Eleição, bolsa em queda e fome de estresse: cortisol engorda?

A eleição de domingo terminou, a bolsa caiu 13,88% na segunda, o pregão parou por meia hora e muita gente passou o dia olhando gráfico vermelho e beliscando. No mercado, chamaram de “Lula Day” o dia que veio no lugar do “Flávio Day” em que os investidores tinham apostado. Então vale a pergunta: cortisol engorda? Engorda quando fica alto por muito tempo, porque aumenta a fome e a vontade de comida calórica. O estresse de um dia ruim, sozinho, não muda seu peso. O que pesa é o que você faz com ele.

Eu vejo isso no meu próprio dia. Se a fome me pega no meio do trabalho, me dá muito estresse, então eu como bem antes. E nos períodos de mais estresse, o ganho de peso deixa de ser de pouquinho em pouquinho: vem um ganho grande num episódio, e depois leva tempo para perder. Falei disso neste vídeo.

O que aconteceu com a bolsa depois da eleição?

No dia 26 de outubro, o Ibovespa fechou em queda de 13,88%, aos 176.608 pontos. A B3 acionou o circuit breaker quando a queda bateu 10%, o primeiro desde a pandemia, e o dólar foi a R$ 5,40. Antes da votação, a bolsa tinha passado semanas subindo na especulação de que o outro candidato ganharia, visto pelos investidores como o resultado melhor para o mercado. Era aposta, não certeza. Quando o resultado veio diferente, a imprensa explicou a queda como surpresa e medo de risco fiscal nos próximos anos.

O que me interessa aqui é o comportamento. Quem vendeu tudo no meio do pânico transformou uma queda no papel em prejuízo real. Quem já tinha um plano, e sabia por que estava investido, teve um dia ruim e seguiu. Como diz o ditado que todo avô repete, dinheiro não aceita desaforo: não se decide de cabeça quente. Com a comida é igual, e é a mesma diferença que eu vejo no consultório entre quem tem critério e quem decide a dieta no susto. Falei disso também em comportamento de manada.

O que o cortisol faz no corpo?

O cortisol é o hormônio que prepara o corpo para enfrentar uma ameaça. Ele sobe de manhã para você acordar, sobe no treino e sobe quando chega uma notícia ruim. Libera energia, deixa você em alerta e depois volta ao normal. Isso é saudável. O problema é quando ele não volta: semana após semana de tensão, sono ruim e preocupação.

Cortisol alto engorda?

Pode engordar, principalmente pelo caminho da comida. Com o estresse crônico, a fome tende a aumentar e a preferência vai para o que é doce, gorduroso e rápido. Num estudo de 2001, mulheres que liberaram mais cortisol durante uma tarefa estressante comeram mais calorias e mais doces logo depois do que as que liberaram menos.

Também há relação entre cortisol alto por muito tempo e acúmulo de gordura na barriga. Agora, cortisol alto de doença, como na síndrome de Cushing, é outra história, com outros sinais, e precisa de médico. O estresse do dia a dia não é Cushing, e não se resolve com chá ou suplemento “anticortisol”.

O cortisol não engorda sozinho. Ele empurra você para a geladeira, e quem decide abrir é você.

Por que tem gente que emagrece no estresse?

Porque o estresse agudo, aquele que bate de repente, costuma tirar a fome. Os hormônios da resposta de alerta seguram o apetite no curto prazo: estômago embrulhado, sem vontade de nada. Já o estresse que se arrasta por semanas tende a fazer o contrário na maioria das pessoas. Então estresse emagrece algumas pessoas, engorda outras e, muitas vezes, faz as duas coisas na mesma pessoa em momentos diferentes.

No consultório isso aparece muito: a pessoa passa a semana sem comer direito por causa da correria e no fim de semana come tudo o que não comeu. Na balança parece que “o estresse engordou”. Na prática, foi o padrão de restrição e compensação, o mesmo que alimenta o efeito sanfona. Esse padrão dá para rever com um nutricionista comportamental online.

O que fazer em semana de estresse?

  • Não mude de plano no susto: semana tensa não é hora de começar dieta radical nem de largar tudo. Mantenha o básico que você já faz.
  • Garanta as refeições principais: pular refeição por falta de tempo é o caminho mais rápido para chegar à noite com fome demais.
  • Proteína e fibra em cada refeição: seguram mais a fome e diminuem a busca por beliscos.
  • Tire a comida do alcance da tela: quem acompanha notícia ou gráfico comendo não percebe o quanto comeu.
  • Treine: o exercício é uma das formas mais eficientes de descarregar a tensão do dia, e o cortisol volta ao normal depois.
  • Proteja o sono: noite mal dormida aumenta a fome no dia seguinte e piora a resposta ao estresse.
  • Desligue o noticiário em algum momento: acompanhar o mercado minuto a minuto não muda o resultado, só aumenta a tensão.

Veredito

Verdade em parte. Cortisol alto por muito tempo aumenta a fome, puxa a escolha para comida calórica e favorece gordura na barriga. Mas ele não age sozinho: o que transforma estresse em quilos é o comportamento repetido. Na carteira e no prato, a regra é a mesma. Decisão de longo prazo se toma com plano, não no dia do pânico.

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Perguntas frequentes

Em quem está saudável, o efeito principal do cortisol no peso passa pela fome e pelo que se come. Se você come pouco e ganha peso sem explicação, junto com outros sinais como pressão alta ou estrias arroxeadas, procure um médico para investigar.
Depende do tipo e da pessoa. O estresse agudo costuma tirar a fome. O estresse que dura semanas tende a aumentar a fome e a vontade de doce na maioria das pessoas. Muita gente alterna os dois: come pouco na semana e compensa no fim de semana.
Não há suplemento que resolva o estresse do dia a dia. O que mais ajuda é sono, exercício, refeições regulares e diminuir a exposição ao que gera tensão. Cortisol alto por doença precisa de diagnóstico e tratamento médico.
Comida doce e gordurosa dá alívio rápido, e o corpo sob estresse aprende a buscar esse alívio. Em estudo, quem liberou mais cortisol numa tarefa estressante comeu mais doce depois. Refeições completas e uma pausa antes de abrir o pacote ajudam a quebrar esse ciclo.

Referências

  1. Epel E, Lapidus R, McEwen B, Brownell K. Stress may add bite to appetite in women: a laboratory study of stress-induced cortisol and eating behavior. Psychoneuroendocrinology, 2001;26(1):37-49.
  2. Torres SJ, Nowson CA. Relationship between stress, eating behavior, and obesity. Nutrition, 2007;23(11-12):887-894.
  3. Adam TC, Epel ES. Stress, eating and the reward system. Physiology & Behavior, 2007;91(4):449-458.
  4. InfoMoney. Ibovespa desaba 13% após eleição, em dia de circuit breaker; dólar dispara 8%. 26 out. 2026.
Zé Ricardo
Zé Ricardo CRN 45033

Zé Ricardo é nutricionista esportivo (CRN 45033), formado pela UFPE, especializado em alimentação para corredores. Atende no Instituto Corrêa (Boa Viagem, Recife) e online em todo o Brasil.

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