Antes da eleição, o mercado passou semanas no que chamou de “Flávio Day”: especulação de que sairia o resultado visto como perfeito para o mercado, com a bolsa batendo recorde atrás de recorde. Veio o resultado contrário, o “Lula Day”, e a bolsa caiu quase 14% num dia. Do oito ao oitenta em 24 horas. Eu vejo esse mesmo movimento toda semana no consultório, só que com comida: é a dieta do tudo ou nada.
O que a bolsa ensina sobre o tudo ou nada?
Quando o mercado precifica só o melhor cenário, qualquer resultado diferente vira desastre. Não importa se a notícia é ruim ou apenas não é a perfeita: a queda vem desproporcional, com gente vendendo a qualquer preço. E quem vende no pânico transforma uma queda no papel em prejuízo de verdade. Quem segura o plano atravessa o dia ruim. Em 2022 também disseram que o Brasil ia acabar, e não acabou.
A dieta funciona do mesmo jeito. Quem começa achando que vai fazer tudo perfeito, todos os dias, já está apostando no único cenário em que não existe aniversário, cansaço, viagem ou dia ruim. Quando a vida real aparece, o plano inteiro desmorona.
O que é pensamento tudo ou nada na dieta?
É enxergar a alimentação em preto e branco: ou o dia foi perfeito, ou foi perdido. Ou estou de dieta, ou “chutei o balde”. Não existe meio-termo, e é aí que mora o problema, porque a vida quase toda acontece no meio-termo.
A frase mais comum no consultório é “já que estraguei, vou comer tudo e começo na segunda”. Um pedaço de bolo vira o pacote de biscoito, a pizza da noite e o fim de semana inteiro. O pedaço de bolo não fez estrago nenhum. O estrago veio da decisão de jogar o resto fora.
Um deslize não estraga a semana. O que estraga é decidir que, já que não foi perfeito, não vale mais nada.
O que a ciência mostra sobre isso?
Num experimento clássico de 1975, pessoas em dieta restritiva que tomaram um milk-shake antes do teste comeram mais sorvete depois do que as que não tomaram. Quem não fazia dieta fez o contrário: comeu menos, porque já estava satisfeito. O milk-shake “quebrou a dieta” na cabeça de quem fazia restrição, e aí o freio soltou.
Estudos mais recentes vão na mesma direção: quem pensa a alimentação em preto e branco tende a reganhar mais peso depois de emagrecer. É o caminho direto do efeito sanfona.
Saí da dieta, e agora?
Volte na próxima refeição, não na segunda-feira. A próxima refeição é normal, do jeito que estava no plano, sem compensar com jejum nem cortar o carboidrato do dia seguinte. Compensar é só mais uma volta na montanha-russa.
- Nomeie o tamanho real do deslize: foi uma refeição, não a semana. Uma refeição a mais, numa semana de 21 refeições, pesa pouco.
- Não compense: pular o café da manhã do dia seguinte costuma trazer mais fome e um novo exagero à noite.
- Volte ao básico: proteína, salada ou legume e água na próxima refeição. Sem fórmula especial de “desintoxicação”.
- Troque a régua: em vez de “fiz tudo certo hoje?”, pergunte “a minha semana foi melhor que a anterior?”. Investidor de longo prazo olha o ano, não o pregão.
- Planeje o imperfeito: se toda sexta tem happy hour, ele já entra no plano. O que está no plano não conta como deslize.
Como sair do tudo ou nada de vez
O antídoto é ter um plano que aguenta dia ruim, montado sozinho ou com um nutricionista comportamental online. Um plano que só funciona quando tudo dá certo é especulação, igual à bolsa precificando o cenário perfeito. Um plano bom tem a versão completa, para os dias normais, e a versão mínima, para os dias caóticos: a refeição que você consegue montar em cinco minutos, o lanche que dá para comprar em qualquer padaria, o treino de 20 minutos.
Quem tem a versão mínima não precisa escolher entre tudo e nada. Escolhe o possível, e o possível, repetido por meses, é o que muda o corpo. Escrevi também sobre como o grupo empurra essas decisões em comportamento de manada.
Resumo prático
O mercado especulou o resultado perfeito para ele e caiu quando a realidade foi outra. A dieta perfeita faz o mesmo com você. Monte um plano com versão mínima, volte na próxima refeição depois de um deslize e meça o seu progresso pela semana e pelo mês, não pelo dia.
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Perguntas frequentes
Referências
- Herman CP, Mack D. Restrained and unrestrained eating. Journal of Personality, 1975;43(4):647-660.
- Byrne SM, Cooper Z, Fairburn CG. Psychological predictors of weight regain in obesity. Behaviour Research and Therapy, 2004;42(11):1341-1356.
- Palascha A, van Kleef E, van Trijp HCM. How does thinking in Black and White terms relate to eating behavior and weight regain? Journal of Health Psychology, 2015;20(5):638-648.
- InfoMoney. Ibovespa desaba 13% após eleição, em dia de circuit breaker; dólar dispara 8%. 26 out. 2026.