A obsessão por proteína tomou conta das academias e das prateleiras: ovo com selo de proteína, água proteica, pipoca proteica, sobremesa proteica, gente pedindo “a proteína” no restaurante em vez de pedir a carne. Proteína importa, mas você não precisa transformar cada refeição numa meta a ser batida. Eu reagi a vídeos sobre essa tendência no meu canal, no vídeo A nova moda das academias, e este post resume o que eu comento lá.
O vídeo tem mais de 40 minutos e mistura a minha voz com a dos vídeos que eu reajo. Aqui fica só o meu lado.
Por que todo produto agora tem proteína na embalagem?
Porque proteína vende. Produtos que sempre tiveram proteína passaram a estampar o número na frente da embalagem, e outros ganham dois ou três gramas a mais só para levar o selo. Como nutricionista, isso virou ruído para mim: no mercado eu olho a tabela do que quero comprar e ignoro os avisos da frente.
No vídeo eu bato numa tecla: milkshake não é fonte de proteína, e a gente precisa entender isso de uma vez por todas. Cada alimento é fonte de alguma coisa, e você busca aquele nutriente onde ele está em maior quantidade. Um chocolate que anuncia 3 g de proteína não muda nada no seu dia. E se aparece uma sobremesa com alguns gramas a mais, pergunte: você vai comer pensando em proteína ou porque é gostoso? A sua proteína vem do resto do dia. Escrevi sobre os produtos mais comuns no post pipoca proteica vale a pena?.
Quanta proteína você precisa por dia de verdade?
Para construir músculo, a faixa que eu uso é de 1,6 a 2,2 g de proteína por quilo de peso por dia. Para saúde e longevidade, 1 a 1,2 g por quilo já resolve. Uma pessoa de 100 kg que treina para ganhar massa fica entre 160 e 220 g por dia. Para fechar a sua meta de proteína, um nutricionista para hipertrofia em Recife pode calcular com você.
Essa faixa bate com o posicionamento da Sociedade Internacional de Nutrição Esportiva. Depois do total do dia, vem a distribuição: proteína em três a quatro refeições já é bom, e cinco é o melhor dos mundos. No vídeo eu falo de um limite de cerca de 30 g por refeição e digo que ele não é tão claro na literatura. Um estudo de 2023 mostrou resposta maior com 100 g de uma vez, então use os 30 g como regra prática, e não como teto. O cálculo passo a passo está em quanto de proteína por dia para emagrecer, e as fontes no prato em alimentos para ganhar massa muscular.
Colágeno e água proteica contam como proteína?
Contam, mas é uma proteína de qualidade inferior à do whey ou da carne. O corpo absorve, sim: a ideia de que não absorve é um mito. O colágeno é digerido em aminoácidos, o corpo usa onde precisa, e comer colágeno não garante mais colágeno na pele. Ele é uma proteína incompleta, sem triptofano.
Muita água proteica usa justamente colágeno, que mistura fácil e não fica leitosa. Antes de pagar por ela, veja se o dinheiro não rende mais num whey protein ou numa refeição com carne, ovo ou peixe.
Receita proteica ajuda ou atrapalha a dieta?
Depende do que ela esconde. No vídeo eu digo que receita proteica, muitas vezes, é uma forma de disfarçar a falta de autocontrole. Você comeria 20 g de chocolate e tomaria o seu whey; como o doce é “fit”, come a tigela inteira de 200 g. Em dia de mais fome, a receita volumosa ajuda. Como desculpa, atrapalha.
No dia em que a torta for de verdade, o hábito de comer a travessa inteira vai junto. Por isso eu insisto em duas habilidades: autocontrole para comer uma quantidade decente e não ser tão reativo à fome. Se separar o whey da receita deixa as duas coisas mais gostosas, separe. Eu gosto de overnight oats: aveia hidratada com pouco leite e, no outro dia, o whey misturado.
E a gente cansa de um sabor só. Hambúrguer, batata e refrigerante descem fácil porque são três estímulos diferentes. Isso é saciedade específica, que eu explico em saciedade alimentar.
Vale pedir proteína extra no restaurante?
Na maioria das vezes, não. A carne de restaurante fica gostosa por causa da gordura: manteiga, azeite, óleo na chapa. Um bife pode chegar com o dobro das calorias só pelo óleo. Eu prefiro que você bata a meta de proteína em casa ou com suplemento e, na rua, capriche no carboidrato, na verdura e no legume.
Com proteína vegetal, a conta também pesa: para bater a meta só com feijão, as calorias estouram. Quem é vegano e quer emagrecer quase sempre precisa de soja e suplemento.
Dá para comer por prazer sem sair da dieta?
Dá, e é o que eu defendo. O nome técnico é desvio hedônico planejado: a refeição livre que já faz parte do plano. Uma, duas, três na semana são tranquilas, porque o que importa é o que você faz em 80% do tempo. Bem diferente de dieta de segunda a sexta e tudo liberado no sábado.
Comer é um comportamento. Eu fico no caminho do meio: nem a obsessão de quem não aceita uma refeição sem proteína, nem o descuido de quem não quer saber do corpo. Se importar com a estética é válido, desde que não prejudique a saúde e o resto da vida. Escrevi mais sobre o assunto em refeição livre ou dia do lixo.
O que fazer com isso?
- Leia a tabela, e não a frente da embalagem. Compare proteína com calorias.
- Conte o total do dia primeiro. Depois divida em três a cinco refeições.
- Bata a proteína onde você controla. Casa e suplemento; na rua, relaxe nessa conta.
- Use receita fit como ferramenta, e não como desculpa.
- Planeje a refeição livre dentro da semana, sem culpa.
O vídeo completo está no canal: A nova moda das academias.
Continue no mesmo assunto:
- Calculadora de custo-benefício: o suplemento que você toma vale o preço?
- O que um atleta de treino híbrido come em um dia? Resumo
- Biscoito fit vale a pena? Industrial ou caseiro, o que compensa
- Vídeo: A situação do low-volume é pior do que você imagina
- Vídeo: Tudo que ele come pra ter músculo e correr um ironman (Nick Bare)
Quer levar isso pro dia a dia? O meu guia de bolso tem a refeição livre inteira, o jeito de pensar que segura a dieta e receitas leves. Abrir o guia de bolso
Perguntas frequentes
Referências
- Jäger R, Kerksick CM, Campbell BI, et al. International Society of Sports Nutrition Position Stand: protein and exercise. Journal of the International Society of Sports Nutrition, 2017;14:20. doi:10.1186/s12970-017-0177-8
- Trommelen J, van Lieshout GAA, Nyakayiru J, et al. The anabolic response to protein ingestion during recovery from exercise has no upper limit in magnitude and duration in vivo in humans. Cell Reports Medicine, 2023;4(12):101324. doi:10.1016/j.xcrm.2023.101324
- Paul C, Leser S, Oesser S. Significant amounts of functional collagen peptides can be incorporated in the diet while maintaining indispensable amino acid balance. Nutrients, 2019;11(5):1079. doi:10.3390/nu11051079