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Nutrição Comportamental

Comer intuitivo funciona? Quando confiar na sua intuição

Comer intuitivo funciona? Quando confiar na sua intuição

Comer intuitivo funciona? Funciona para algumas coisas e para algumas pessoas, e o jeito como as redes sociais mostram costuma esconder a parte mais importante. Quando reagi a um dia de alimentação de um atleta de treino híbrido, neste vídeo, ele falou em comer intuitivo e eu parei para avisar: muito do que se vê por aí sobre isso pede cuidado. Aqui vou separar o mito da verdade.

O que é comer intuitivo?

É uma abordagem criada nos anos 1990 pelas nutricionistas Evelyn Tribole e Elyse Resch, que propõe sair da lógica da dieta e se guiar pela fome, pela saciedade e pelo prazer de comer. Tem dez princípios, como respeitar a fome, fazer as pazes com a comida e respeitar o corpo. Não é um cardápio, e não significa comer sem critério.

O mito mais comum diz que comer intuitivo é “comer o que der vontade, na hora que der vontade”. Na proposta original, a intuição vem junto com atenção ao corpo e escolhas que cuidam da saúde.

Comer intuitivo funciona?

Depende do que você espera dele. Estudos associam o comer intuitivo a menos comportamentos de alimentação desordenada, melhor imagem corporal e mais bem-estar. Já a relação com o peso é pequena, e a maior parte das pesquisas é observacional: mostra uma associação, e não prova que uma coisa causa a outra.

Um estudo que acompanhou adolescentes até a vida adulta viu que quem tinha mais comer intuitivo tinha menor chance de episódios de compulsão alimentar anos depois. É um dado promissor, e continua sendo uma associação.

A sua intuição está treinada?

Depende de a intuição estar treinada. Se você sempre comeu “no feeling” e hoje está com um peso ou uma rotina com os quais não está bem, a sua intuição ainda não está calibrada. Isso não é defeito seu: ninguém nasce sabendo quanto de proteína tem num prato. Um nutricionista comportamental online pode ajudar a treinar esses sinais com você.

Esse é o ponto que quase ninguém conta. No vídeo eu digo que “foi a tua intuição que te fez chegar aí onde tu tá agora”, e que isso pede cuidado quando alguém vende comer intuitivo como solução imediata.

Eu uso uma comparação: “intuição só é intuição se tu sabe o que tá por trás”. Um engenheiro que passou anos em obra bate o olho e sabe que o cálculo está certo, mesmo que depois confirme no papel. Quem nunca construiu uma casa tem uma intuição que pode estar totalmente errada. Com comida é igual. Por isso, para quem tem dificuldade, primeiro eu ensino quais alimentos comer em maior frequência e quantidade e quais em menor. Quando você aprende isso, a intuição fica lapidada, e aí sim você está pronto para comer intuitivamente.

Comer intuitivo emagrece?

Ele não foi desenhado para isso, e prometer emagrecimento com comer intuitivo é um erro. Quem precisa perder peso em geral precisa de um plano com estrutura, que dê para sustentar. O comer intuitivo entra como um destino: a fase em que você já aprendeu o básico e confia nos seus sinais sem depender de uma dieta rígida.

Para quem vem do ciclo de dieta e descontrole, essa fase importa muito, e é o que evita o efeito sanfona. Mas ela vem depois do aprendizado, e não no lugar dele.

Comer intuitivo ou contar calorias?

Depende da fase e do objetivo. Contar calorias é ferramenta de aprendizado e de ajuste, e comer intuitivo é forma de manutenção. Quem nunca teve noção de quanto come raramente acerta só pelo feeling, e por isso a medição costuma vir antes da intuição.

No react, o atleta contou que não rastreia mais calorias nem macronutrientes. Comentei que ele é um caso fora da curva, com volume de treino muito alto, e que a maioria das pessoas não pode se dar o luxo de não ter a menor ideia de quanto está comendo.

Contar calorias não precisa durar para sempre: basta ter uma noção antes de largar a medição. Falo mais sobre esse atleta e sobre o que ele realmente comeu neste resumo do vídeo.

Como aprender a comer intuitivamente?

Aprenda primeiro o básico do que comer mais e menos, depois pratique regularidade, atenção e saciedade, sem proibir nada. Leva meses, e é mais seguro com acompanhamento de nutricionista. O objetivo é chegar a uma fase em que você escolhe bem sem fazer conta, sem que a sua rotina dependa de força de vontade.

  • Aprenda o básico: quais alimentos entram com mais frequência e quantidade no seu dia e quais entram com menos. É o mapa que treina a intuição.
  • Mantenha regularidade: refeições com horário aproximado e completas. Fome extrema derruba qualquer intuição.
  • Coma devagar e perceba a saciedade: veja mais em saciedade alimentar.
  • Não proíba: como eu digo, “não tem nada proibido, nada certo, nada errado”. O que muda é a frequência e a quantidade. Planejar a comida por prazer evita o descontrole, como explico em refeição livre ou dia do lixo.
  • Procure acompanhamento se houver descontrole: compulsão alimentar tem tratamento próprio. Leia compulsão alimentar ou impulso.

Comer intuitivo vale a pena?

Comer intuitivo é uma boa meta, mas não é um ponto de partida para todo mundo. A intuição funciona melhor quando tem conhecimento por trás, e quem aprendeu o básico chega nela com menos esforço e menos culpa. Se você tem dúvida sobre em que fase está, converse com um nutricionista antes de largar qualquer plano.

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Perguntas frequentes

Não. A proposta original junta atenção à fome e à saciedade com escolhas que cuidam da saúde. Comer sem critério não é comer intuitivo. A intuição precisa de base para ser confiável.
Compulsão alimentar precisa de acompanhamento de psicólogo e nutricionista, e comer intuitivo não substitui isso. Os princípios podem entrar no plano de tratamento, mas quem define é o profissional.
Não, é uma abordagem que se opõe à lógica da dieta restritiva. Mesmo assim, para a maioria das pessoas ela funciona melhor depois de aprender o básico de quais alimentos comer mais e quais comer menos.
Quem tem volume de treino alto às vezes tem mais margem, mas é uma exceção. A maioria das pessoas precisa de uma noção de quanto está comendo, principalmente quando o objetivo é emagrecer ou ganhar massa.

Referências

  1. Tribole E, Resch E. Intuitive Eating: A Revolutionary Anti-Diet Approach. 4ª ed. St. Martin’s Essentials, 2020.
  2. Linardon J, Tylka TL, Fuller-Tyszkiewicz M. Intuitive eating and its psychological correlates: a meta-analysis. Int J Eat Disord, 2021;54(7):1073-1098. doi:10.1002/eat.23509
  3. Hazzard VM, Telke SE, Simone M, et al. Intuitive eating longitudinally predicts better psychological health and lower use of disordered eating behaviors: findings from EAT 2010-2018. Eat Weight Disord, 2021;26(1):287-294. doi:10.1007/s40519-020-00852-4
  4. Tylka TL. Development and psychometric evaluation of a measure of intuitive eating. J Couns Psychol, 2006;53(2):226-240.
Zé Ricardo
Zé Ricardo CRN 45033

Zé Ricardo é nutricionista esportivo (CRN 45033), formado pela UFPE, especializado em alimentação para corredores. Atende no Instituto Corrêa (Boa Viagem, Recife) e online em todo o Brasil.

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